Direito Internacional

Quanto tempo pode levar uma homologação de sentença estrangeira

Entenda os fatores que influenciam o prazo do procedimento de homologação de sentença estrangeira perante o STJ.

Alexandre Corrêa Lima·25 de julho de 2026·10 min de leitura

Direito Internacional

Esta é, junto com o custo, a primeira pergunta de quem precisa fazer valer no Brasil uma decisão obtida no exterior. E a resposta honesta é que não existe prazo legal fixo — mas existem fatores conhecidos que determinam se o procedimento correrá em meses ou se arrastará por anos.

Este artigo mapeia cada um desses fatores, mostra onde o tempo realmente se perde e o que está sob o seu controle.

Sumário

Não há prazo legal que determine em quanto tempo o STJ deve concluir a homologação de uma sentença estrangeira. O procedimento segue o rito previsto no CPC (arts. 960 a 965) e no Regimento Interno do STJ, com prazos processuais para atos específicos — citação, contestação, manifestações —, mas sem prazo total predefinido.

Na prática, o tempo depende muito mais da qualidade da instrução e da resistência da parte contrária do que do tribunal.

As fases do procedimento e o tempo de cada uma

FaseO que ocorreO que determina a duração
PreparaçãoReunião de documentos, apostila, traduçãoAgilidade do país de origem e do tradutor
AjuizamentoProtocolo do pedido no STJRápido, se a instrução estiver completa
CitaçãoChamamento da parte requeridaFacilidade de localizá-la; se está no Brasil ou no exterior
ContestaçãoDefesa limitada aos requisitosSe há ou não resistência
Manifestação do MPFParecer do Ministério Público FederalFluxo interno
DecisãoJulgamento do pedidoComplexidade e existência de controvérsia

A fase invisível: preparação documental

Quem calcula o prazo a partir do protocolo esquece a etapa mais demorada. Antes de ajuizar, é preciso:

Antes do protocolo

  • Obter a decisão estrangeira em inteiro teor
  • Comprovar que a decisão é eficaz no país de origem
  • Reunir a documentação da citação no processo estrangeiro
  • Apostilar os documentos (ou legalizá-los via consular)
  • Providenciar tradução por tradutor público
  • Obter procuração com poderes específicos, apostilada se assinada fora

Em países onde a obtenção de cópias integrais é lenta, ou quando não há Convenção da Apostila (exigindo via consular), essa etapa isolada pode consumir meses.

O que mais atrasa

  • Dificuldade de citação da parte requerida — especialmente quando ela não é localizada ou reside fora do Brasil.
  • Documentação incompleta, gerando exigências e nova rodada de tradução ou apostilamento.
  • Contestação da parte requerida, ampliando o contraditório.
  • Discussão sobre ordem pública ou competência exclusiva (CPC, art. 23), temas que exigem análise mais densa.
  • Necessidade de diligências no exterior para complementar documentos.
  • Pedido mal delimitado, que alcança capítulos não homologáveis.

O que acelera

  • Instrução completa desde o protocolo — o fator isolado mais relevante.
  • Endereço atualizado da parte requerida, facilitando a citação.
  • Tradução e apostilamento corretos na primeira tentativa.
  • Pedido bem recortado, pleiteando apenas o que é efetivamente homologável.
  • Verificar antes se o caso é de dispensa: o divórcio consensual estrangeiro produz efeitos no Brasil independentemente de homologação (CPC, art. 961, §5º) — nesse caso, o procedimento sequer é necessário.

Contestação: quanto muda no prazo

Quando a parte requerida contesta, o procedimento naturalmente se estende: há manifestação do requerente, parecer do Ministério Público Federal e análise mais detida pelo tribunal.

Vale lembrar que a defesa é limitada — discute-se autenticidade dos documentos, inteligência da decisão e os requisitos do art. 963 do CPC, não o mérito julgado no exterior. Detalhes em como contestar um pedido de homologação.

E depois da homologação?

Se o objetivo é receber um valor, o relógio não para na homologação. Ainda haverá a execução, que tramita perante o juízo federal competente (CPC, art. 965) e cujo tempo depende da existência de bens localizáveis e da resistência do devedor.

Ou seja: para cobranças, o prazo relevante é o do percurso completo. Veja como executar a sentença estrangeira homologada.

Erros comuns

  • Contar o prazo apenas a partir do protocolo, ignorando a preparação.
  • Ajuizar com documentação incompleta “para ganhar tempo” — o efeito costuma ser o oposto.
  • Não verificar a dispensa do art. 961, §5º.
  • Deixar para providenciar tradução e apostila depois das exigências.
  • Planejar só a homologação quando o objetivo real é receber.

Perguntas frequentes

Existe prazo legal para o STJ decidir? Não há prazo total predefinido. O rito tem prazos para atos específicos, mas a duração depende sobretudo da instrução e da resistência da parte contrária.

O que mais demora no procedimento? Normalmente a preparação documental (antes do protocolo) e a citação da parte requerida.

Contestar atrasa muito? Amplia o contraditório e naturalmente estende o procedimento, com manifestações adicionais e parecer do Ministério Público Federal.

Posso pedir urgência? Medidas de urgência podem ser avaliadas conforme os requisitos legais e a situação concreta.

Preciso comprovar trânsito em julgado? Não. O art. 963, III, do CPC exige que a decisão seja eficaz no país de origem, substituindo a antiga exigência de trânsito em julgado.

Divórcio no exterior demora o mesmo? Se for divórcio consensual, pode nem precisar de homologação (CPC, art. 961, §5º). Havendo outras disposições, o procedimento é necessário.

A distância do país influencia? Indiretamente: influencia o tempo de obtenção de documentos e, eventualmente, a citação.

E se a parte requerida não for encontrada? O processo prevê formas de citação para essa hipótese, o que costuma alongar a tramitação.

Depois de homologar, quanto tempo até receber? Depende da execução na Justiça Federal e, sobretudo, da existência de bens localizáveis do devedor.

Como reduzir o prazo do meu caso? Chegando ao protocolo com a instrução completa: inteiro teor, prova de eficácia, documentação da citação, apostila e tradução — e endereço atualizado do requerido.

Conclusão

O prazo de uma homologação não é uma loteria: é a soma de etapas cujo tempo, em boa parte, está sob o controle de quem pede. Documentação completa desde o início, prova sólida da citação e delimitação correta do pedido são o que separa um procedimento fluido de um caso que se arrasta.

E, se o objetivo é receber, planeje homologação e execução como um percurso único — é o prazo do conjunto que importa.

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